Coluna do EDÚ – “Estragaram o nosso Interlagos!”
“Estragaram o nosso Interlagos!”
Edu Pincigher
Quando ingressei na revista Motor Show, publicada pela Editora Três, no ano da graça de 1994, a ideia do Domingo Alzugaray, dono da editora, era surfar a onda dos carros importados que invadiam o mercado brasileiro. Ele chamou um antigo revisteiro, chamado Walter Arruda, para tocar o projeto. E o WA convidou o trio que acabara de sair da Quatro Rodas: Luiz Bartolomais Jr., Douglas Mendonça e eu.
Ainda que déssemos sabor de graxa ao conteúdo editorial da revista, o Arruda não abria mão de sua ideia original para a publicação, que era criar uma espécie de “revista Caras automotiva”, isto é, você sempre tinha nas avaliações a opinião do jornalista especializado e, além da dele, contava com os palpites de uma celebridade.
Ex-diretor da antiga TV Tupi nos anos 70, Arruda conhecia todo o casting das emissoras. E foi nesse período que vários artistas passearam pelas páginas da revista participando das produções das reportagens, andando com os carros e dando suas opiniões. Mas cá pra nós, hein? Era forçado demais… E não acrescentava nada, pelo menos para o leitor tradicional de uma publicação especializada em automóveis.
Foi quando criamos uma fase de transição e instituímos a participação de personagens que estivessem ligados ao mundo dos automóveis. Eram pilotos, ex-pilotos, empresários, comerciantes, enfim, gente que sabia a diferença de pneu e carburador e, obviamente, contribuía barbaramente com o conteúdo editorial. A Motor Show rivalizava, à época, com a AutoEsporte pelo posto de segunda revista com a maior circulação do país, o que não era pouco.
Pude conhecer pessoalmente e fazer algumas reportagens com vários pilotos renomados do automobilismo brasileiro. Aqui eu me concedo um aparte, mas que está totalmente relacionado a esse tema e tem um conteúdo interessantíssimo. Entrevistei cerca de dez ou doze pilotos de F1. A todos fiz a mesma pergunta. E, de todos, recebi a mesma resposta: “o que mais te impressionou quando você andou de F1 pela primeira vez?” Ayrton, Nelson, Émerson, Rubinho, Gugelmin, Tarso, Christian, Raul… todos disseram: os freios. Nada é igual a um F1 como a potência do sistema de freios. Os carros de competição não precisam ter a mesma durabilidade do conjunto discos, pastilhas, cilindros de roda e outros itens como os de rua. Por isso você tem freios tão mais eficientes nos carros de pista.
Diferentemente do início da revista, onde astros globais esforçavam-se para guiar carros com câmbio automático, pois alguns nunca haviam tentado – os anos 90 eram outro planeta mesmo –, ouvir de um Emerson comentários sobre o Dodge Viper RT/10 era incrível. Ou do Nelson a opinião a respeito de BMW M3 versus Mercedes C43 AMG… Demos um salto qualitativo gigantesco. Eram aulas.
Vou me conceder o segundo aparte. Quem não é jornalista nunca participou de uma “reunião de pauta”, que nada mais é do que um brainstorm para definir quais as reportagens que integrarão a próxima edição. É a chance de engrandecer ideias que nascem, por vezes, bem modestas.
Lá pelos idos do final da década, fizemos mais uma reunião de pauta na Motor Show. E alguém sugeriu que convidássemos um piloto veterano, que havia sido um dos precursores do automobilismo brasileiro, para pilotar algum esportivo atual. Só lembro que apareceu outro coleguinha e palpitou que isso fosse feito em Interlagos – o autódromo paulistano havia sido reformado poucos anos antes e era possível que os pioneiros de Interlagos nem conhecessem o traçado novo.
A matéria cresceu. De repente, havíamos reunido 6 carros esportivos da época (Honda Prelude, Mitsubishi Colt, Renault R19 16V, Citroën ZX 16V, Peugeot 306 S16 e Fiat Tipo 16V) e convidamos oito pilotos veteranos para testá-los no Autódromo de Interlagos. Acho que foi a reportagem mais sensacional que tive o prazer de participar na minha carreira. Os pilotos convidados não eram meus ídolos, mas os do meu pai. Caras que guiaram nos anos 50 e 60, muitos deles anteriores ao próprio Emerson Fittipaldi.
Pra ficar ainda mais interessante, nós acertamos na mosca: nenhum deles conhecia o novo traçado. Os personagens não se viam havia décadas e o reencontro foi extremamente emocionante.
Verdadeiras lendas: Camilo Cristófaro, Eugênio Martins, Luiz Pereira Bueno, Marinho César, Fritz d´Orey, Chico Lameirão e Bird Clemente. Se minha memória não me trai, o oitavo era o Ciro Caires. Como a história do reencontro desses craques acabou se alastrando, ainda tivemos outros dois personagens inesquecíveis: Jorge Lettry e Toni Bianco.
A primeira exclamação de todos foi unânime: “estragaram o nosso Interlagos!” Todos falaram o mesmo. “Virou uma pistinha de bunda-mole! Não há mais nenhum desafio. Nada. Só freia, contorna e acelera”, era o que diziam. Pra você, que nunca viu o circuito antigo do Autódromo de Interlagos, busque alguma referência no YouTube. Ache alguma câmera onboard pra entender o quanto era magnífico o traçado da pista.
Outro dado curioso era a tônica dos comentários sobre aderência e, principalmente, os FREIOS dos carros testados. “Ah se eu tivesse freio assim nas minhas carreteras“, dizia o Camilão.
Conforme eles iam descendo dos carros, apanhávamos notas de alguns itens, como aceleração, retomada, aderência, frenagens, conforto. Depois somamos e demos o resultado na matéria.
Você quer saber quem ganhou? Não faço a mais remota e absoluta ideia! Deve ter sido o Prelude, que era um cupê esportivo bem mais dotado que os outros hatches. Mas isso era o que menos importava, sinceramente. Relembrando essa passagem, eu digo com convicção: tanto faz. Mesmo.
Os personagens ali foram os pilotos. Todos eram muito especiais. Mas eu ainda tive como eleger meus preferidos. Primeiramente o CAMILÃO. Ali ele já tinha perto (ou mais) de 70. E a tranquilidade com que ele freava o Prelude no final da Oposta e fazia a tomada do Lago? De impressionar. Coisa de quem guiou muito carro ruim a vida toda e, de repente, se via ao volante de automóveis muito mais neutros nas reações. Ele chegou a comentar: “engraçado como esse Hondinha faz tudo o que eu quero. Eu viro, ele obedece. Eu breco, ele também obedece… Não tô acostumado com carro assim”.
E o Bird, botando os carros de lado, tal qual fazia com os inesquecíveis Willys Interlagos? O detalhe é que ele fazia isso com um braço só, sorridente, olhando para a minha cara (eu estava no banco do passageiro).
Mas, confesso, ainda mais do que os dois: nunca vou esquecer do quanto o tal de LUIZ PEREIRA BUENO era rápido. Lembrei logo do meu pai contando que viu várias corridas em Interlagos na arquibancada, no final dos anos 60, e achava o Luizinho até mais “bota” que o próprio Emerson.
Deus do céu, como guiava aquele sujeito… Ele não testou os carros: fez voltas de classificação! Saí uma hora do boxe guiando o Honda Prelude, que andava bem mais que os outros carros, diga-se. Todos os demais estavam na faixa de 140 a 155 cv. O Prelude tinha 190 cv. E colei na traseira do Renault. A diferença, contudo, era que o Luizinho estava guiando o carro da frente. Ele nunca tinha andado de R19 16V e nem no circuito novo. Mas o que homem acelerava! E o que eu aprendi do traçado só andando na cola dele!!
Inesquecível andar com esses magos do automobilismo em Interlagos.
E só um post scriptum: aprendi anos atrás que você deve desconfiar severamente de cidadãos que maltratam garçons, não gostam de cães e não comem bacon. Pois. Tenho observado, como um esforçado repórter, se essa definição faz sentido. E faz. Mas acrescente ao teorema original: desconfie também de quem não gosta de automóveis. Tenho dito.